Derrotado
nas urnas, senador se autoproclama presidente eleito, acusa o sistema eleitoral
sem apresentar provas e anuncia oposição a partir dos Estados Unidos. No meio
do roteiro, ainda evoca figuras históricas e políticas de trajetórias muito
distintas.
Peço
desculpas a Ruy Barbosa. Sinceramente. Ter seu nome comparado ao de alguém que,
depois de perder uma eleição, resolve se proclamar presidente eleito é uma
daquelas injustiças que nem a ironia consegue reparar completamente.
O
Brasil assistiu a mais um capítulo da política transformada em espetáculo.
Derrotado na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) divulgou, nesta
quarta-feira (28), uma carta na qual se apresentou como o “verdadeiro
presidente eleito do Brasil”. A primeira versão ainda trouxe um brasão com a
inscrição “Estados Unidos do Brazil”, denominação histórica adotada após a
Proclamação da República. Depois, vieram alterações no documento.
A
realidade das urnas, entretanto, não muda com revisão de texto, troca de brasão
ou atualização de identidade visual.
Na
carta, Flávio voltou a acusar o Supremo Tribunal Federal e o PT de fraude
eleitoral, sem apresentar provas que sustentem as acusações. Também se
descreveu como perseguido político e afirmou que liderará a oposição brasileira
a partir dos Estados Unidos.
É
uma curiosa forma de interpretar a democracia: quando o resultado agrada, como
no primeiro turno, celebra-se a vontade popular; quando desagrada, questiona-se
a própria vontade popular.
E
há outro detalhe. No domingo, o senador afirmou que não reconheceria o
resultado do segundo turno e que pediria a anulação do pleito. Depois, sua
campanha recuou dessa tese. Agora, a carta oferece uma nova versão do enredo: a
de um suposto presidente eleito que pretende exercer sua liderança política
longe do país.
Flávio
também se comparou a Ruy Barbosa, Charles de Gaulle, Juan Guaidó, Edmundo
González e María Corina Machado. A lista, convenhamos, é ambiciosa. Comparações
históricas, porém, não se tornam equivalências apenas porque aparecem em uma
carta. Chega até a ofender as personalidades citadas.
A
situação ganha mais um ingrediente quando se recorda que o senador deixou o
Brasil mesmo após uma intimação da Polícia Federal para não viajar. A viagem
ocorreu em meio a questionamentos judiciais e investigações. Flávio afirma que
não fugiu, mas saiu do país para poder exercer sua liderança política.
A
escolha das palavras é livre. A interpretação dos fatos, nem tanto.
Enquanto
se apresenta como vítima de perseguição, Flávio carrega outra questão política
que merece esclarecimentos: sua relação financeira com Daniel Vorcaro,
ex-banqueiro do Banco Master.
Reportagens
baseadas em mensagens e áudios revelaram a negociação de um financiamento de US$
24 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões à época, para a
produção de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
Flávio
cobrou parcelas do financiamento, pessoalmente. O senador admitiu ter buscado
patrocínio privado para a produção, mas nega irregularidades e afirma que não
recebeu dinheiro ou vantagem indevida pessoalmente. Reportagens apontaram
repasses de aproximadamente R$ 61 milhões relacionados à produção, sem
comprovação de que todo o valor negociado tenha sido transferido.
A
pergunta que permanece é simples: transparência vale apenas quando se trata dos
adversários ou também quando os números envolvem os próprios aliados e
familiares?
RuyBarbosa, jurista, jornalista e uma das figuras históricas da República
brasileira, merece ser lembrado por sua própria trajetória, e não transformado
em adereço retórico de uma disputa eleitoral contemporânea.
A
democracia não é um figurino que se veste quando convém, nem uma faixa
presidencial que alguém pode confeccionar para si mesmo. É um sistema de
regras, instituições e, sobretudo, respeito à soberania popular.
Por
isso, fica registrado o pedido de desculpas a Ruy Barbosa e à memória de quem
dedicou a vida ao debate público e às instituições.
A
comparação foi injusta.
Porque
perder uma eleição não é crime, discordar do resultado dentro das regras
democráticas é legítimo, e recorrer à Justiça é um direito. Mas proclamar-se
vencedor sem respaldo eleitoral não transforma derrota em vitória.
E,
no fim das contas, nem o brasão mais republicano do mundo consegue fazer de uma
carta uma ata de eleição.
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