Tem coisa que dói mais do que barulho.
É o silêncio.
Como andar por Arcoverde em pleno Carnaval e não lembrar do tempo em que a cidade parecia suspensa?
Buíque lotada, Pesqueira fervendo, o Recife e Olinda disputados, as praias cheias. Diziam: “todo mundo viaja”.
Mas quem era esse “todo mundo”?
Os que podiam?
Os que tinham carro, hospedagem, convite?
Ou os 99% que ficavam?
A maioria ficava. Na terra. Na calçada. Na memória.
Construímos o São João. Foi quase natural. A vocação, o talento, os artistas, o sentimento coletivo. Mas o Carnaval… ah, o Carnaval era um desafio. Parecia que a cidade tinha aceitado o destino do silêncio.
Até que, em 2001, como bem lembrou Albérico Pacheco, alguém resolveu enfrentar a lógica pronta. Não foi só uma decisão administrativa. Foi política. Foi cultural. Foi um ato de teimosia afetiva: criar uma identidade para o Carnaval de Arcoverde.
Começou com três bois.
Três.
E vieram os risos dos “intelectuais políticos”, os comentários atravessados, as previsões de fracasso. No segundo ano eram sete. Depois vieram mais. E mais. Até que a Folia dos Bois virou movimento.
Em 2010, ganhou vitrine nacional na TV Globo. Não foi comprada. Não foi bancada com contratos milionários. Foi construída. Era história viva.
De três para trinta e três bois desfilando pela Praça da Bandeira. Ano com arquibancada. Criança brincando de boi na rua, no bairro, no recreio da escola. Porque quando a cultura entra na escola, ela deixa de ser evento e vira pertencimento.
Arcoverde começava a ser conhecida por algo que era só dela.
Pesqueira tem os Caiporas.
Bezerros tem os Papangus.
E Arcoverde estava se tornando a terra da Folia dos Bois.
Estava.
O mundo novo chegou com discursos modernos, planilhas frias e prioridades técnicas. E, aos poucos, o que era rastro virou poeira. O silêncio voltou, mas agora não é o silêncio de antes. É o silêncio de quem sabe o que perdeu.
Não se está apenas tirando o Carnaval do coração de Arcoverde.
Está se apagando uma construção coletiva.
E quando dizem: “mas estamos dando dinheiro aos blocos e troças”… fica a pergunta que insiste:
Cultura é só repasse?
É só cachê?
É só evento de calendário?
Ou cultura é identidade, é continuidade, é política pública com memória?
Dinheiro paga trio.
Pertencimento constrói geração.
Talvez o maior erro não seja acabar uma festa.
Seja esquecer que ela já tinha virado símbolo.
E símbolo, quando é abandonado, vira saudade.
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