sexta-feira, 29 de maio de 2026

Promotor Lincoln Gakiya não vê “benefícios” em classificação do PCC e CV como organizações terroristas

                 O promotor de Justiça Lincoln Gakiya classificou como “muito grave” a decisão do governo dos Estados Unidos de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Especialista no combate ao crime organizado, Gakiya afirmou que a medida pode trazer impactos negativos ao Brasil, especialmente no campo da soberania nacional e da cooperação internacional em segurança pública.

A declaração foi dada durante entrevista ao podcast “O Assunto”, do portal g1, após o Departamento de Estado norte-americano anunciar a nova classificação das facções brasileiras. Segundo o promotor, o enquadramento pode alterar completamente a dinâmica das investigações internacionais envolvendo o crime organizado.

“Não vejo nenhum benefício prático que essa classificação possa trazer. Acho que há o risco muito grande dos Estados Unidos quererem fazer algum tipo de ação militar secreta aqui dentro do Brasil, como fez no México e também na Venezuela”, afirmou Gakiya.

De acordo com o integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), atualmente a cooperação internacional ocorre principalmente através de órgãos policiais como o FBI e a DEA, agência americana de combate ao narcotráfico. Porém, com a nova classificação, o protagonismo passaria para órgãos de inteligência e defesa, como a CIA e estruturas militares dos Estados Unidos.

Para o promotor, isso poderá reduzir a troca de informações entre os países. “Quando passa a ser tratado pela CIA e pelos militares, há sigilo dessas informações, classificadas como secretas ou ultrassecretas. Então provavelmente teremos prejuízo na cooperação”, alertou.

Gakiya também demonstrou preocupação com possíveis reflexos no sistema financeiro brasileiro. Segundo ele, instituições financeiras poderiam ser atingidas indiretamente por sanções internacionais caso movimentações relacionadas às facções sejam identificadas em cadeias financeiras complexas.

O promotor citou como exemplo a Operação Carbono Oculto, investigação que revelou esquemas de lavagem de dinheiro do PCC envolvendo postos de combustíveis, fintechs e fundos de investimento.

“Você poderia sancionar bancos que sequer tiveram contato direto com integrantes do PCC, mas que indiretamente receberam recursos nessa cadeia financeira”, explicou.

Lincoln Gakiya atua há mais de duas décadas no enfrentamento ao PCC e se tornou uma das principais referências do país no combate à facção criminosa.

Em maio deste ano, ele recebeu o Prêmio Faz Diferença 2025, promovido pelo jornal O Globo, na categoria Brasil, em reconhecimento à sua atuação contra o crime organizado.

O promotor passou a atuar de forma ainda mais intensa contra o PCC após descobrir, em 2005, que era alvo de um plano de execução da facção. Desde então, liderou investigações estratégicas, incluindo pedidos de transferência de líderes da organização para presídios federais, medida considerada decisiva para enfraquecer a comunicação do grupo criminoso. 

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