segunda-feira, 14 de julho de 2025

PF identifica desvio de R$ 91,6 milhões em emendas para empresas fantasmas ligadas a prefeito do Ceará

             Uma investigação da Polícia Federal revelou um esquema bilionário de desvio de recursos públicos federais no Ceará, com ramificações que envolvem o prefeito Carlos Alberto Queiroz, conhecido como Bebeto do Choró, e o deputado federal Júnior Mano (PSB-CE). Os dados levantados apontam que R$ 91,6 milhões em verbas da União, destinados a municípios cearenses, foram repassados a um conjunto de empresas fantasmas, supostamente ligadas a Bebeto.

Segundo a PF, as empresas de fachada foram criadas com capital social fictício e não possuíam atividade econômica real. A movimentação financeira desses CNPJs, entre 2023 e 2025, chega a R$ 455 milhões, dos quais cerca de 20% foram rastreados até emendas parlamentares federais descentralizadas para ao menos 50 prefeituras do interior cearense.

Bebeto, que foi eleito prefeito de Choró, município de pouco mais de 12 mil habitantes, é apontado como braço operacional de Júnior Mano e parte central do esquema. Desde o final do ano passado, Bebeto encontra-se foragido da Justiça, após o avanço das investigações. Tentativas de contato feitas pelo jornal O Estado de S. Paulo não obtiveram resposta.

A Operação Underhand, deflagrada na semana passada, colocou Júnior Mano no centro das apurações. O inquérito tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Gilmar Mendes, e aponta que o deputado pode ter destinado pelo menos R$ 120 milhões em emendas para prefeituras do sertão cearense, inclusive a de Choró, governada por seu aliado.

Em nota oficial, o gabinete de Júnior Mano afirmou que o parlamentar “não tem qualquer participação em processos licitatórios, ordenação de despesas ou fiscalização de contratos administrativos”.

Além do desvio de recursos, a PF investiga denúncias alarmantes sobre o uso da facção Comando Vermelho para intimidação, compra de votos e ameaça a opositores políticos na região. Segundo os investigadores, o esquema teria sido utilizado por Bebeto durante a campanha municipal de 2024, com o objetivo de garantir a vitória em Choró e pavimentar a expansão da influência política de Júnior Mano no sertão cearense.

A apuração sugere que havia um plano estruturado de dominação política regional, articulado entre Júnior Mano e Bebeto, com vistas às eleições municipais passadas e à consolidação de um núcleo de poder financiado com dinheiro público desviado.

A Polícia Federal continua analisando documentos bancários, extratos e registros oficiais, cruzando informações com dados do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Tribunal de Contas do Estado do Ceará, para identificar a extensão completa do esquema.

A operação segue em curso e novos desdobramentos são esperados nas próximas semanas. O caso escancara os riscos de corrupção sistêmica envolvendo emendas parlamentares e revela como o uso político desses recursos pode alimentar esquemas de poder paralelos e alianças com o crime organizado.

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