segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Denúncia expõe monitoramento sem inquérito e sem ordem judicial em Pernambuco

            Se não houve espionagem, alguém esqueceu de avisar o rastreador. A denúncia revelada pelo programa Domingo Espetacular, da TV Record, trouxe à tona um episódio no mínimo curioso — e juridicamente questionável — envolvendo a Polícia Civil de Pernambuco, acusada de monitorar a rotina do secretário de Articulação do Recife, Gustavo Monteiro, auxiliar direto do prefeito João Campos (PSB), sem ordem judicial, sem inquérito instaurado e, ao que tudo indica, com criatividade de sobra.

Segundo a reportagem, agentes teriam acompanhado os deslocamentos do secretário e chegado ao ponto de instalar um rastreador em um veículo oficial da Prefeitura do Recife, também utilizado por Eduardo Monteiro, irmão do secretário. Tudo isso, conforme a própria Secretaria de Defesa Social (SDS-PE), a partir de uma denúncia anônima — instrumento que, segundo a Justiça, não autoriza a abertura de inquérito.

Em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (26), o secretário de Defesa Social, Alessandro de Carvalho, tratou de afastar qualquer suspeita de espionagem. Classificou o caso como uma “narrativa falsa” e explicou que a Polícia Civil apenas realizou uma “apuração preliminar” após denúncia anônima sobre suposto pagamento de percentuais relacionados a um contrato, envolvendo um encontro em um estacionamento de shopping.

O detalhe é que o próprio secretário admitiu que não havia justa causa para abertura de inquérito, razão pela qual teria sido criado um “grupo de trabalho” para investigar. Uma solução criativa: se não pode investigar oficialmente, cria-se um grupo informal — com direito a monitoramento, vigilância e rastreamento veicular.

“A Justiça já determinou que não pode abrir inquérito a partir de denúncia anônima. Não havia justa causa para abrir”, disse Alessandro de Carvalho, antes de justificar a atuação alternativa da corporação.

À TV Record, Gustavo Monteiro reagiu com indignação e acusou o uso indevido da máquina pública. “É um absurdo usar a força policial para perseguir a oposição no estado de Pernambuco”, afirmou.

Apesar disso, o secretário de Defesa Social garantiu que não houve motivação política. Segundo ele, o verdadeiro problema foi o vazamento das conversas internas do grupo de trabalho para um jornalista — algo que, ironicamente, passou a preocupar mais do que a existência do próprio grupo.

A SDS informou que investiga se o vazamento teria ligação com um policial afastado, flagrado em encontro com o presidente da Câmara de Vereadores de Ipojuca, Flávio do Cartório (PSD), suspeito de envolvimento em irregularidades com emendas parlamentares. “Provavelmente estaria passando informações para uma organização criminosa”, disse Alessandro.

A Prefeitura do Recife reagiu com dureza e classificou o episódio como perseguição política, repudiando o que chamou de uso indevido das forças policiais do Estado.

Confira abaixo a nota na íntegra:

Nota Oficial – Prefeitura do Recife

A Prefeitura da Cidade do Recife repudia qualquer tentativa de uso indevido das forças policiais de Pernambuco para perseguição política.

A Polícia Civil de Pernambuco é uma instituição séria e respeitada, não existindo, até hoje, registro desse tipo de tentativa de uso eleitoral nos mais de dois séculos de sua existência.

Essa atitude caracteriza uma conduta ilegal, inconstitucional e imoral, nunca vista em nosso Estado, e a Prefeitura não poupará esforços para defender seus servidores desse tipo de ataque, utilizando as esferas administrativas e judiciais cabíveis.

O caso segue repercutindo e levanta questionamentos sobre limites da atuação policial, respeito às garantias constitucionais e o uso — ou abuso — de instrumentos de investigação fora dos trilhos legais.

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