sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

OPINIÃO: Alagamentos e destruição: É justo novamente culpar o povo?

             Por Djnaldo Galindo*

A cidade de Arcoverde repete, ano após ano, o mesmo teatro da impotência e mais uma vez a comunicação oficial de quem seria responsável por resolver o problema coloca a responsabilidade nas costas do povo, alegando que o lixo não recolhido é causa, pois obstrui as galerias. Quando as chuvas chegam, o poder público corre para desobstruir bocas de lobo e galerias, num esforço que já nasce derrotado. É lutar contra a correnteza com um rodo: um investimento fadado ao fracasso, pois ignora a origem do problema.

A verdade, que insistem em não enxergar, é geométrica e ecológica. A água que alaga as ruas mais baixas não nasce no asfalto; ela desce com fúria das serras e encostas que cercam a cidade. O volume e a velocidade com que chegam são o resultado direto de décadas de agressão ambiental. O desmatamento das nossas serras causado principalmente por autorização de loteamentos somado à impermeabilização causada pelas ruas pavimentadas (que aceleram o escoamento), transformou o Riacho do Mel em um funil que não dá conta da tempestade que nós mesmos criamos.

É uma irracionalidade histórica. As gestões passadas e a atual tratam o efeito (a enchente) como prioridade, enquanto a causa (a degradação das serras) é relegada a um “planejamento futuro” que nunca chega. Investir milhões em "tapa-buracos" hidráulicos e limpezas emergenciais, sem um real programa de médio e longo prazo para conter o avanço dos loteamentos irregulares nas encostas e promover o reflorestamento, não é gestão; é negligência cíclica.

Enquanto não houver a coragem de dizer "não" à ocupação desordenada das serras e de plantar o futuro com áreas verdes que seguram a água da chuva, Arcoverde continuará refém das tempestades. A solução não está apenas no que desce, mas no que a gente permite que se construa lá em cima. Ou mudamos a lógica do "depois a gente resolve", ou seguiremos, a cada trovoada meros espectadores da enxurrada.

*Ambientalista, integrante da ONG Coletivo Portal Encantado, formado em História pela AESA e cientista político formado pela UNITER.

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