A cidade de Arcoverde repete, ano após ano, o mesmo
teatro da impotência e mais uma vez a comunicação oficial de quem seria
responsável por resolver o problema coloca a responsabilidade nas costas do
povo, alegando que o lixo não recolhido é causa, pois obstrui as galerias.
Quando as chuvas chegam, o poder público corre para desobstruir bocas de lobo e
galerias, num esforço que já nasce derrotado. É lutar contra a correnteza com
um rodo: um investimento fadado ao fracasso, pois ignora a origem do problema.
A verdade, que insistem em não enxergar, é
geométrica e ecológica. A água que alaga as ruas mais baixas não nasce no
asfalto; ela desce com fúria das serras e encostas que cercam a cidade. O
volume e a velocidade com que chegam são o resultado direto de décadas de
agressão ambiental. O desmatamento das nossas serras causado principalmente por
autorização de loteamentos somado à impermeabilização causada pelas ruas
pavimentadas (que aceleram o escoamento), transformou o Riacho do Mel em um
funil que não dá conta da tempestade que nós mesmos criamos.
É uma irracionalidade histórica. As gestões
passadas e a atual tratam o efeito (a enchente) como prioridade, enquanto a
causa (a degradação das serras) é relegada a um “planejamento futuro” que nunca
chega. Investir milhões em "tapa-buracos" hidráulicos e limpezas
emergenciais, sem um real programa de médio e longo prazo para conter o avanço
dos loteamentos irregulares nas encostas e promover o reflorestamento, não é
gestão; é negligência cíclica.
Enquanto não houver a coragem de dizer
"não" à ocupação desordenada das serras e de plantar o futuro com
áreas verdes que seguram a água da chuva, Arcoverde continuará refém das
tempestades. A solução não está apenas no que desce, mas no que a gente permite
que se construa lá em cima. Ou mudamos a lógica do "depois a gente
resolve", ou seguiremos, a cada trovoada meros espectadores da enxurrada.
*Ambientalista, integrante da
ONG Coletivo Portal Encantado, formado em História pela AESA e cientista
político formado pela UNITER.
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