segunda-feira, 1 de junho de 2026

Política à Mesa: A propaganda e o espelho da realidade

             A comunicação política é uma ferramenta poderosa. Constrói imagens, fortalece lideranças e amplia conquistas. Mas existe um limite que nem o melhor marqueteiro consegue ultrapassar: a realidade.

João Campos é, sem dúvida, um dos nomes mais fortes da política pernambucana. Tem visibilidade, aprovação e protagonismo suficientes para disputar qualquer eleição majoritária sem precisar recorrer a atalhos narrativos.

Por isso chamou atenção o release distribuído por sua assessoria atribuindo ao socialista a entrega de 75 veículos para a saúde de municípios pernambucanos. João participou do evento, esteve presente, dialogou com lideranças e cumpriu seu papel político. Mas os veículos pertencem a programas do Governo Federal, financiados pela União e entregues por representantes oficiais do Ministério da Saúde.

Pode parecer apenas um detalhe de comunicação. Não é.

Existe uma diferença importante entre participar de uma entrega e ser responsável por ela. Entre prestigiar uma ação e executá-la. Entre estar na foto e ser o autor da obra.

O episódio revela um erro comum quando a comunicação passa a correr mais rápido que os fatos. A propaganda pode ampliar uma realidade, mas dificilmente consegue substituí-la por muito tempo.

Os grandes marqueteiros costumam repetir que a propaganda não cria realidades permanentes. Ela potencializa realidades existentes. Quando tenta substituir os fatos, transforma-se em caricatura. E é justamente aí que algumas peças da engrenagem parecem começar a bater cabeça.

João Campos não precisa reivindicar a autoria de investimentos federais para demonstrar força política. Seu capital eleitoral já fala por si. Quando a comunicação tenta atribuir protagonismos que não correspondem aos fatos, corre o risco de transformar uma virtude em questionamento.

A publicidade pode iluminar uma obra. Pode ampliar uma ação. Pode transformar um gesto em mensagem. O que ela não consegue fazer, por mais criativa que seja, é substituir a realidade sem que a própria realidade apareça depois para reivindicar o protagonismo. E quando ela aparece, costuma cobrar precisão. 

No fim das contas, comunicação eficiente não é a que inventa grandezas. É a que consegue traduzir, com credibilidade, as grandezas que já existem.

E, para quem pretende governar Pernambuco, talvez essa seja uma lição tão importante quanto qualquer pesquisa eleitoral. 

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