A
decisão do atual prefeito de Arcoverde de orientar o esvaziamento deliberado de
uma sessão da Câmara, longe de demonstrar força, revela um equívoco clássico à
luz da ciência política: a má leitura de determinada conjuntura e que dar
protagonismo a um provável adversário. Ao instruir nove vereadores a se
ausentarem, o prefeito abre mão do total controle institucional que detinha e,
paradoxalmente, concede ao presidente da Casa um ativo político precioso — a
visibilidade como voz solitária de oposição.
Em
sistemas políticos locais, onde a dinâmica de poder é fortemente marcada pela
presença e pela ocupação dos espaços institucionais, o boicote raramente
enfraquece quem se pretende atingir. Pelo contrário, cria-se uma narrativa de
resistência. O presidente, antes isolado, passa a ocupar simbolicamente o papel
de contraponto, elemento essencial em qualquer arena democrática. Em termos
estratégicos, o prefeito transforma um ator secundário em um único
protagonista.
Além
disso, a ausência coordenada dos vereadores governistas fragiliza a própria
base, transmitindo à população a imagem de desarticulação e fuga do debate
público. A lógica republicana pressupõe confronto de ideias no espaço
institucional, não o seu esvaziamento. Ao abdicar desse princípio, o grupo
governista não apenas erra taticamente, mas também compromete sua legitimidade
perante o eleitorado.
Se,
como ensina a teoria política, só se combate adversários que representem ameaça
real, a atitude adotada cria exatamente essa ameaça. O que antes era um
isolamento político converte-se, por erro estratégico, em capital simbólico
para quem agora pode reivindicar o papel de oposição — algo que, até então,
sequer existia de fato.
*
Cientista político formado pela UNITER, formado em História pela AESA,
ambientalista, integrante da ONG Coletivo Portal Encantado
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