terça-feira, 10 de março de 2026

Violência doméstica avança no Sertão do Moxotó e expõe desafios para a rede de proteção às mulheres

                  Por Paulo Edson*

Na semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, o crescimento dos casos de violência doméstica e familiar contra mulheres no Sertão do Moxotó acende um alerta para autoridades públicas e para a sociedade. Os números mais recentes da Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística revelam que a região registrou aumento significativo de ocorrências entre 2024 e 2025, indicando que o enfrentamento à violência de gênero continua sendo um dos grandes desafios das políticas públicas no interior de Pernambuco.

A Área Integrada de Segurança 19 (AIS-19), que tem sede em Arcoverde e abrange também os municípios de Buíque, Ibimirim, Itaíba, Manari, Pedra, Sertânia, Tupanatinga e Venturosa, contabilizou 1.536 mulheres vítimas de violência doméstica em 2025. No ano anterior, haviam sido registrados 1.294 casos. O salto representa crescimento de 18,7% em apenas um ano. 

O aumento acompanha uma tendência observada em diferentes regiões do país, mas, no contexto do interior, o problema ganha contornos ainda mais preocupantes. Como principal polo urbano do Sertão do Moxotó, Arcoverde aparece no topo das estatísticas regionais. Em 2025, o município registrou 685 casos de violência doméstica contra mulheres, contra 595 ocorrências em 2024 — um crescimento de 15,1%. 

O aumento dos registros também levanta questionamentos sobre a efetividade das respostas institucionais. Em alguns casos que ganharam repercussão na cidade, como uma denúncia envolvendo um ex-missionário de uma igreja evangélica, ainda não houve divulgação pública de desfechos investigativos, o que reforça o debate sobre a resolutividade dos casos e a necessidade de transparência nas investigações e como essas mulheres estão sendo atendidas pelos órgãos públicos. 

Embora Arcoverde concentre o maior número absoluto de ocorrências, municípios menores apresentaram crescimento percentual ainda mais acentuado. O caso mais alarmante é o de Manari, onde os registros saltaram de 17 casos em 2024 para 37 em 2025, aumento superior a 117%. Pedra também registrou crescimento significativo, com alta de 36,7%, enquanto Tupanatinga apresentou elevação de 32,5%.

Os dados demonstram que a violência doméstica não está restrita ao maior centro urbano da região, mas se espalha por todo o território da AIS-19, atingindo também comunidades menores e mais vulneráveis.

Os primeiros meses de 2026 indicam que o problema permanece em alta. Apenas em janeiro e fevereiro, os municípios da região já registraram 301 casos de violência doméstica contra mulheres. Mais uma vez, Arcoverde lidera as estatísticas, com 123 ocorrências. Em seguida aparecem Sertânia, com 54 registros, e Buíque, com 38 casos. Se o ritmo se mantiver ao longo do ano, a região poderá ultrapassar novamente os índices registrados em 2025.

Especialistas destacam que o crescimento dos registros pode ter duas interpretações importantes: mais violência sendo registrada, mas também mais mulheres tendo coragem de denunciar. Apesar de avanços institucionais nos últimos anos, especialistas apontam que a rede de proteção às mulheres ainda enfrenta limitações estruturais na região.

Em Arcoverde, por exemplo, a Delegacia da Mulher — inaugurada durante as gestões do então governador Paulo Câmara e do ex-prefeito Wellington Maciel — não funciona em regime de plantão 24 horas. A unidade encerra o atendimento nos finais de semana, o que é considerado uma fragilidade no sistema de proteção. Falta efetivo, sobra silêncio por parte da governadora Raquel Lyra.

Nos períodos em que a delegacia está fechada, vítimas precisam procurar delegacias comuns, o que pode gerar constrangimentos ou dificultar o acesso ao atendimento especializado. O enfrentamento da violência doméstica exige atuação integrada entre polícia, Judiciário, assistência social, saúde e educação, além de investimentos contínuos em prevenção.

Mais do que estatísticas, os números representam histórias de mulheres que sofreram agressões dentro do próprio ambiente familiar. Cada registro aponta para uma realidade que exige respostas rápidas e políticas públicas efetivas. No Sertão do Moxotó, o desafio agora é transformar os dados alarmantes em ações concretas de proteção, prevenção e responsabilização, fortalecendo a rede de proteção e garantindo que nenhuma vítima fique sem apoio ou justiça.

*Paulo Edson: Jornalista, fundador da Ânima Comunicação e Conteúdo e criador e editor do portal de notícias A Folha das Cidades

Nenhum comentário:

Postar um comentário