O
debate na Câmara de Vereadores de Arcoverde expõe uma contradição central: um
projeto voltado à Educação de Jovens e Adultos (EJA), que deveria ser celebrado
como política pública de inclusão, transforma-se em disputa de protagonismo
político. A questão essencial permanece: o projeto pertence a quem? Aos
gestores ou à população que dele necessita?
A
realidade estatística mostra que o alto índice de analfabetismo em Pernambuco e
no município de Arcoverde revela a ausência de políticas estruturais eficazes,
sendo estas substituídas por ações paliativas. A expansão do ensino integral,
ao eliminar o ensino noturno, agravou a exclusão de trabalhadores,
especialmente mulheres, população negra e grupos socialmente vulnerabilizados,
ampliando a evasão escolar.
Embora
haja pressão institucional do Ministério Público, dos Fóruns da EJA e da AMUPE
para a ampliação da modalidade e a adesão de Arcoverde ao Pacto pela Superação
do Analfabetismo e Qualificação da Educação, a realidade local ainda é marcada
por precariedade estrutural, poucas turmas e condições inadequadas de
funcionamento, desrespeitando a dignidade dos estudantes.
Segundo
dados do IBGE de 2022, Arcoverde possui cerca de 12,3% de sua população em
situação de analfabetismo nas séries iniciais, ou seja, sem domínio da leitura
e da escrita. É preciso criar ações concretas para enfrentar essa realidade,
como a abertura de turmas de EJA nas escolas das periferias e da zona rural,
além da melhoria da estrutura das unidades que atualmente atendem essa
modalidade. A Escola Freire Filho, no bairro São Geraldo, apresenta estrutura
precária e mobiliário inadequado, pensado para crianças e não para adultos. Já
a Escola João Batista Cruz, localizada no bairro Cidade Jardim, também não
atende plenamente às necessidades desse público.
A
lógica de disputa pela “paternidade” de projetos deve ser superada, pois o foco
precisa ser o compromisso político com o direito à educação. Não basta oferecer
incentivo financeiro — ainda limitado —, sendo necessárias políticas concretas
de permanência, com infraestrutura adequada, formação de professores e
ampliação da oferta para os territórios mais vulneráveis. É importante lembrar
que muitos estudantes da EJA são oriundos de trajetórias escolares marcadas por
exclusão e por modelos educacionais que não atenderam às suas realidades.
Por
fim, reafirmo que a EJA é um direito e não pode ser tratada como instrumento de
capital político. Cabe ao poder público garantir acesso, permanência e
dignidade educacional à população historicamente excluída.
Damião Alves de Lucena é professor da Rede Municipal de
Ensino. EJA- Fórum Municipal da EJA – Arcoverde.PE
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