sexta-feira, 3 de abril de 2026

Entre privilégios e espera: tenente acusado recebe salário na reserva enquanto filha de policial morta aguarda pensão

             Em um caso que escancara contrastes difíceis de ignorar, a transferência do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto para a reserva da Polícia Militar levanta questionamentos sobre prioridades e justiça. Indiciado pelo feminicídio da soldado Gisele Alves Santana, o oficial passa a receber remuneração na inatividade — um benefício equivalente à aposentadoria — enquanto a filha da vítima ainda aguarda um direito básico assegurado por lei.

A portaria publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo garante ao militar proventos proporcionais de 58/60 do salário, praticamente integrais. Na prática, mesmo sob acusação de um crime grave e após prisão, o tenente-coronel passa a contar com estabilidade financeira assegurada pela própria estrutura pública.

Até então, seus vencimentos estavam suspensos desde 18 de março, data de sua prisão, segundo a Secretaria da Segurança Pública. A ida para a reserva muda esse cenário — ainda que, oficialmente, não interfira nas investigações criminais e administrativas em curso.

Do outro lado dessa história, a realidade é bem diferente. A filha de Gisele Alves Santana, de apenas 7 anos, segue aguardando a concessão da pensão a que tem direito. O pedido foi protocolado junto ao SPPrev e está amparado pela legislação estadual que garante o benefício a dependentes de servidores falecidos.

A discrepância chama atenção: enquanto o acusado já tem assegurado um rendimento praticamente integral, a criança — vítima indireta da tragédia — ainda enfrenta a burocracia para acessar um direito previsto em lei. Dois caminhos distintos dentro do mesmo sistema, com velocidades bem diferentes.

Embora a Secretaria reforce que a transferência para a reserva não interfere na responsabilização do militar, o episódio amplia o debate público sobre tratamento institucional, equidade e o papel do Estado diante de casos de extrema gravidade.

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